sábado, 23 de setembro de 2017

AOS OLHOS DE PAULA OZ

Mais do que escrever sobre um escritor é ler sobre a iconoclastia do verbo: Leonor Nepomuceno, a voz que vem do outro lado dos ângulos e do nascimento da natureza, o dom de atribuir, desabafar, fortalecer, chorar, sorrir, morrer e renascer através do universo.

É um eclipse... Um instante que permanece acima de qualquer metáfora antes utilizada, é um desnudar puro e profundo que se afirma pela diferença do seu olhar perante o mundo e toda a sua conexão, é o sentir da alma. Uma imagética de vislumbres mordazes onde se respira o chão de um querer aristotélico, que em rigor não se identifica com afirmação ou dúvida, mas sim com a curiosidade, a pergunta, a solução de um desabafo poético. É uma poesia de portas abertas e de janelas de esperança, de uma sementeira forte a que se inspira de página em página. Leonor Nepomuceno é a “lavradora da palavra".

A raiz que a poesia precisa para se agigantar com a poetisa.

Ao ler esta obra, encontrei-me a suspirar no tempo, as lágrimas eram nuas e solidárias, o sorriso era amor e sentimento, saudade na voz do vento, um turbilhão em espiral in- concreta e urgente de mais e mais sentidos...tantos e tantos, que atravessei o mundo sem dar conta...

Não é comum esta linguagem quase ostensiva de um desejo, um grito poético para quebrar, desafiar o pico do espírito, levantar referências neo-românticas como se este mundo acontecesse por força de um astro supremo, sonhador e entregue ao destino, um discursar melancólico, belo, tocante, um cântico interior, um altar sem classificação. É um altar onde somente a poesia pode rezar e pedir perdão no coração da poetisa.

São prelúdios contra o supérfluo que nos assombram e cegam pelo fulgor de um vocabulário sincero e tantas vezes mensageiro do céu.

Este livro é uma estrada ou um abismo, é o amor e a revolta, é a natureza e a beleza, é a memória e a mulher, a menina e a sua história, é um tempo dorido, um sem tempo nem dor póstuma, um ser vibrante e inédito diria "cardíaco" que nos leva para um sul de versos como novas parábolas, o coração bate, o coração é quente, o coração pulsa. Há uma corrente inigualável, um rio que corre nas veias, a chuva que molha e canta, a chuva que dança e lacrimeja, a chuva que acolhe e sua... A água casa da ALMA. O sonho casa da TERRA.

A autora Leonor Nepomuceno não nos permite a fuga, não nos permite o não-sentir, ela é tão autêntica, tão real, tão poesia qua as palavras, vivem dentro dela. Soltas, nuas, numa transparência que chega a atingir um heterónimo de si mesma, sendo um “eu ”peculiaríssimo, o que resta é um nome favorecido pelo Deus da humildade num sedutor espelho sem ficção.

Este é o livro que qualquer pessoa, qualquer poeta, qualquer sobrevivente, gostaria de ter escrito.

Assim, labirinto primordial de uma obra com vida.
Escadas em mistério... Renovação... Esperança
Paula OZ
Escritora e Critica Literária

Não percas a tua liberdade de errar...
(Leonor Nepomuceno)



Para a obra
- E quando a chuva voltar –

Da autora Leonor Nepomuceno

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO

        Para Ontem

 Mal atravesso a rua e vejo na esquina uma mãe falando aos berros com uma criança, um menino de cinco anos talvez. ”Disse pra você que tinha que fazer o dever de casa, não disse! Agora sua professora fala pra você que era pra ontem?!”  O que poderia existir de estranho numa mãe dando bronca em seu filho por não fazer o dever de casa? A meu ver, poderíamos começar questionando o papel do “dever de casa” para uma criança tão pequena.  Por isso vou pedir que rebobinem a fita. Claro, não temos mais fitas pra rebobinar. E a pergunta então coça: por que tanta pressa? Por que no final de período letivo encontramos uma criança pequena apavorada, uma mãe estressada e uma professora... Bem, a professora é “pra ontem”! Como a nossa educação brasileira que vem sendo fomentada ou para ontem ou para um amanhã que nunca chega de fato. Penso que o  pobre do futuro deva estar até corcunda de tanto peso que jogam pra ele. 
          Não consigo entender e muito menos aceitar esse tipo de método  que inclui e impõe responsabilidades extremas às crianças, e para crianças ainda tão pequenas.  Por que tão cedo? Ah, sim, é o “pra ontem”! Se ao cinco está assim, aos dez certamente estará tomando ansiolíticos com o consentimento e aplauso de toda gente. Aos treze será diagnosticado como bipolar por um sujeito que teoriza sobre o assunto, tomará antidepressivos, consumirá todos os outros tipos de drogas até chegar aos dezoito quando decidirá participar de um reality show de reabilitados para enfim se reintegrar à sociedade.  Tudo isso assim, num estalo de dedos: pra ontem!
               Vivemos no mundo das megacorporações, dos executivos de ponta, do empreendedorismo, do mercado competitivo e agressivo, do CEO’s. Disso sabemos. Mas pergunto de novo: quem ocupará esses lugares na grande cadeia alimentar da monstrópolis? Os nossos filhos e netos? Ou os meninos que estudaram desde a pré-escola nas escolas bilíngues, falam mandarim, fizeram MBA nas melhores universidades do ranking mundial?  Que ilusão é essa sorrateira, perversa, que faz pais zelosos jogarem seus filhos tão cedo e tão logo ao refugo dos seres que rastejam por sucesso? Não entendo e não aceito.
           Vejo meninos e meninas com dez, onze anos com agendas abarrotadas de afazeres. Estão deixando de viver suas infâncias e mal sabem o que é brincar pra valer.  Os pais exigentes pressionam seus filhos para os resultados, para a competição – quase sempre desigual.  Colocam na cabeça das crianças que elas precisam se tornar “sociáveis, vencedoras, pessoas bem sucedidas”.  O fracasso é a desordem do século XXI. Ser tímido já em si ser fracassado. Ser mediano nas notas significa um fracasso. Ser diferente é um caos completo.  Queremos uma juventude alta, atlética, bonita e bem sucedida.  E tudo o que não couber nesse pacote deverá ser descartado.  O padrão estético é uma das exigências dessa nova mentalidade.  É a ontogênese de plástico.  Os corpos devem ser esculpidos, feitos em blocos de produção de massinhas nas academias que se proliferam numa proporção diametralmente oposta ao número de bibliotecas, livrarias e espaços culturais. Uma monstrópolis mesmo, uma multidão sem cabeça.
              E aí chegamos a um paradoxo inevitável: como a multidão sem cabeça conseguirá gerar maior equilíbrio num mundo cada vez mais desequilibrado? E desequilibrado emocionalmente, apesar do abuso dos psicotrópicos. Em países mais desenvolvidos o número de suicídios cresce de forma alarmante entre os jovens.  A depressão será a grande doença vilã do fim de século. Mas será que paramos para imaginar como será a velhice dos centenários depressivos do século XXI? O homem viverá mais. Que homem? Pra quê? Como a ciência que aumenta anos de vida poderá sanar a ansiedade, o mal estar contemporâneo, o aumento da psicopatia, das insanidades cometidas por desvios emocionais mal resolvidos?
         Para pensar o ser humano na sua inteireza, holisticamente,  não poderemos ao mesmo tempo projetar essas cobaias de futuros promissores, de vencedores em tudo.  Não é apenas contraditório, é doente. É um sinal de doença dessa sociedade, de doença também de uma classe média achatada entre ser e ter, conseguir e não conseguir...  E ambicionar ser o melhor sem o meio termo, sem a média, não é em si uma garantia de topo.  Nem para quem está no topo da cadeia há garantia de topo.  Menos ainda para a classe média. Então... Por que tanta pressa? Por que formar para deformar?
         Outro dia vi uma cena que me chamou atenção. Uma mesa repleta de adolescentes numa lanchonete de shopping com seus smartphones. Ninguém conversava com ninguém, mas todos falavam coisas aleatórias, monossilábicas, de quando em quando, sem desgrudar os olhos de seus brinquedinhos. Disse isso, porque essa é uma cena que não chama mais a atenção de ninguém, ela se tornou lugar  tão comum que chega a ser boring. Não que os que os adultos também não façam a mesma coisa. Mas a questão que urge é que, bem sucedidos ou não, esses adolescentes serão os adultos da minha velhice.  Vai me dizer que você não se preocupa com a sua velhice? Eu me pré-ocupo com os adolescentes e me preocupo comigo, com o futuro que deles é meu, é nosso.
            Não sei aonde e como chegará essa nova modalidade de ser humano.  E entendo que saberemos dele cada vez menos ao pensar que sabemos cada vez mais. Quanto mais o dominarmos mais ele se esquivará para dentro de seu abismo particular, quanto mais o doutrinarmos para o sucesso mais ele se sentirá rejeitado, mal amado, mal integrado... Claro, estamos fazendo tudo que rege o método dos apressadinhos, menos o que rege a nossa intuição: amá-los, ficar mais com eles e ouvi-los. É porque amar não vem em bula, não é mesmo? Não há receita. E, por incrível que pareça, ainda não inventaram um método mais bem sucedido de chegar à felicidade. 
           A melhor pedagogia passa por aí e não me interessa conhecer os números, as estatísticas dos que se julgam donos da expertise pedagógica da vez.  Os números podem sempre ser torturados. Mas as crianças deveriam ser poupadas disso. Deveriam lhes devolver suas infâncias roubadas com horas e mais horas livres para não fazerem absolutamente nada. Porque o nada  é o gênesis, é onde a ideia germina, a ciência acontece, a poesia se mostra, a história se cria. O nada é muito.

              E “pra ontem”, professora, só o passado sem volta. E a vontade do hoje.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... LÚCIO MUSTAFÁ

Vem para o Mundo Bom Possível! Vem!

O mundo selvagem era aberto, não tinha cercas, nem muros, nem armazéns.

Era mais fácil ser independente de outros humanos, nele, bastava sair por aí, com cuidado apenas em relação aos perigos naturais: aos animais predadores e se botar a pescar, caçar e recolher frutos e todo tipo de coisa alimentícia.

Em qualquer lugar se fazia uma barraca e se morava nas margens de qualquer lago ou rio... se tivesse alguém chateando, bastava se mudar e tudo estava resolvido.

Mas nesse nosso mundo em que tudo é cercado, murado e armazenado, não nos sobra muita opção a não ser irmos nos aprisionando uns nos outros e nos tornando mais e mais dependentes.

Aí, para diminuir o impacto de tamanha perda de liberdade e independência, a gente vai aceitando versões maquiadas desta realidade tolhedora, limitante, intimidante.

A gente vai aceitando acreditar que a civilização não é fruto de um sistema errado de convivência, voltado a fazer uns se sobreporem aos outros, enriquecendo às custas de tal sobreposição; a gente vai se enganando até com a criação fantástica de seres invisíveis, hipoteticamente habitantes de uma realidade paralela, melhor e mais equilibrada, na qual porém também haverá (talvez) muros, cercas, portões gradeados e até armazéns; haverá um dono, um senhor exercendo sua influência global sobre todas as mentes que, finalmente, abdicarão da prerrogativa de discordar (do livre-arbítrio) e do ser criativas e se renderão diante da evidência de que tudo o que de melhor já existe naquele mundo bom (mas cercado) paralelo.

Mas no nosso âmago, sentimos que fica faltando uma parte da explicação, principalmente porque nos vemos induzidos a ter que conviver com pessoas más, que nos machucam, ou poderiam nos machucar repentinamente, quando estivéssemos desprevenidos.

No nosso âmago percebemos que algo não está funcionando corretamente. Então nos damos conta que somos obrigados, se quisermos ter uma vida minimamente protegida contra aquele e outros tipos de agressividade, a viver criando mil estratégias para conservar ao menos nossa auto-estima elevada.

Temos a necessidade de nos olhar no espelho e de gostar do que vemos, temos a necessidade de sermos orgulhosos de nós mesmos, de nossos feitos e temos também a necessidade de termos um plano para o nosso sucesso em relação a tal proteção.

Pode até acontecer que buscar tal situação protegida contra os perigos de sofrer agressividade alheia se torne o objetivo maior da vida da pessoa, pois, se percebe que, pelo menos, quem consegue o famoso "lugar ao sol" é quem é bem sucedido na mirabolante aventura de se livrar das muitas ameaças de sofrimento veladas em cada esquina.

A coisa se complica ainda por conta dessa disputa entre indivíduos aprisionados entre cercas, muros, portões de ferro e armazéns, terminar se despejando no mundo da política, gerando teorias diferenciadas do como se deve dinamizar o sistema de agressividade contra quem pensa diferente, por motivo A ou por motivo B, não importa.

Gera-se assim o mundo das ilusões das ilusões e o indivíduo se encontra então num mundo semelhante a um campo minado, um mundo ameaçador. Por isso que nesse mundo se entristece, por isso que nesse mundo se pode ficar deprimido etc.

Mas ver essa realidade nua e crua, ao menos para mim, não é algo que me faça desesperar não, embora, obviamente, se preferiria que o mundo fosse outro, que não terminássemos submetidos a alguém que já nos fez algum mal terrível ou que tem costume de nos machucar ou que pode, de repente, nos machucar sem motivo real ou aparente.

Ver essa realidade para mim é coisa boa, pois me deixa: 1. menos ingênuo; 2. mais perspicaz; 3. instigado do ponto de vista da criatividade; 4. independente, enquanto não mais iludido de que essa ou aquela pessoa, de um momento para o outro, se transformará numa pessoa boníssima e nos brindará com sua proteção e bons tratos eternos.

A partir daí é que eu resolvi ser genial, inventar um modo de ser que me permita dar olé em todos aqueles perigos, reais e potenciais; que me permita perceber as mínimas oportunidades de utilizar tempo e espaço e realizar pequenas ações deliciosas e honrosas ao mesmo tempo.

A partir daí eu me dei conta que não faz o mínimo sentido eu me comprometer com quem está comprometido em seguir seus piores instintos e que, em relação àquela pessoa, ou àquelas muitas, ou muitíssimas pessoas, eu posso tranquilamente, me resguardar, sem odiá-las, mas sem também ter expectativas infantilóides em relação a elas.

Eu aprendi a chamar isso de realismo e aprendi a amar o realismo e a partir do realismo criar meus mundos possíveis, minhas realidades fantásticas, realmente fantásticas, meus paraísos, meus mundos paralelos, neste mesmo plano da materialidade, diferente daquele sonho de um mundo fora desse no qual porém continuará a existir cercas, muros, grades, armazéns.

Por fim eu me dei conta que esse meu sofrimento, que essa condição sofrida, aprisionada nesse mundo civilizado erradamente, eu a compartilho com trilhões de outras pessoas na face da terra e que os que estão nascendo em continuação, de certa forma, continuarão a compartilhar comigo de tal dor e, como decidi ser mais esperto do que o espertalhão (ou espertalhões) criador de tal armadilha civilizada, escogitei esse sistema artístico alternativo que muitos hoje me vêem utilizar que me faz usar a palavra, a cor e o som (o toque e o paladar também) para propor um desmonte desse mega engano, dessa sociedade penitenciarizante, aprisionante, um desmonte cheio de amor, panamorista, que inicia pela nossa decisão de não colaborar mais com os guardas carcerários, nem como o presidente do presídio social, criar dissenso voltado para uma visão futura de mundo bom, de mundo no qual não seja necessário cercas, nem muros, nem chaves, nem trancas, nem grades, nem portões, nem armazéns, nem cofres, nem prisões, nem patrões, nem subordinações, nem policiamentos, nem encarceramentos.

Um mundo só de paz, só de amor, um mundo panamorista, possível.
Possível pelo simples fato de alguém como eu poder existir e pelo simples fato também que eu sou alguém comum, alguém como você que também pode ser um eu.

Vem ser eu que eu aceitarei ser você, nesse projeto de fazer o mundo amadurecer e perceber que é necessário um desmonte total e uma reorganização geral para que tudo seja bom, para que tudo seja belo, para que tudo seja delicioso e para que a vida seja uma linda aventura feita só de beijos, abraços, denguinhos, carinhos, carícias, lindas transas, lindas artes, lindas emoções, lindas invenções.

Vem!


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANAN MAYRINCK

No vácuo do tempo

Percebi em vivência o que significa essa expressão que sempre utilizei de forma literal e do quanto somos vulneráveis aos planejamentos e ações do destino ou acontecimentos cósmicos ou ao acaso, seja o nome que for, de acordo com a filosofia de vida de cada um.

Nunca gostei de planejar ou me perceber a médio ou longo prazo, sempre tive uma certa aversão, de querer me imaginar em um tempo a frente e de tentar controlar os acontecimentos. Após anos resistente e relutando muito para essas determinadas situações, ano passado, confirmei a presença em um evento, meses antes, hospedagem e passagem pagas e a cia aérea, não enviou o ticket de embarque que até hoje não foi encontrado ou justificado. Não compareci, e a confirmação de que planejamento geralmente termina em frustração e decepção.

Teimosa, esse ano, lá fui eu fazer novos planos, a médio prazo, e orgulhosa de que finalmente havia superado esse incômodo na minha vida, segui determinada, passo a passo, contrariando a minha natureza. (Lembrando que 50% do sucesso não dependiam de mim). De início logo nas primeiras semanas, dois projetos foram cancelados e tive que readaptar-me. Outro por insistência dos acontecimentos, foi realizado, mas sem a satisfação e excelência  do que foi idealizado e imaginado.

Por fim, ainda tomei fôlego e insisti. Três meses de empenho, pesquisas, buscas e ao perceber que tudo estava caminhando sem sustos, confirmei novamente a minha presença, nesse mesmo evento, um ano depois. Com as experiências anteriores, tomei todas as providências para seguir tranquilamente na empreitada de obter meu primeiro sucesso em planejamento antecipado. Mas como por ironia ou sina, no último minuto do segundo tempo, houve um erro da operadora de viagens, marcando a data tantas vezes repetida e escrita para 7 dias após a data solicitada. Foi uma semana sem dormir, indignada, tentando resolver de todas as formas a incompetência e descaso alheio. E regida pelo incontrolável, todas as datas de embarque daquela companhia estavam lotadas para os dias que eu precisava. Ultrapassei o limite de toda a minha diplomacia, descontrole e capacidade de negociação, até a conformação de que não era para ser e estar novamente naquele momento. A mesma situação se repetiu. Passagem e hospedagem pagas com antecedência, confirmação da minha presença e estou aqui.

Explicação? Não tenho. Aceitação? Para não perder a minha fé, quis acreditar naquela máxima de que não era para ser.

Fiquei parada no vácuo do tempo.

Corri tanto para deixar tudo organizado, despedi-me da família e amigos, organizei todos os detalhes burocráticos de quem faz uma mudança de vida e de repente... Não embarquei para o destino planejado naquele dia tão esperado.

E a minha vida parou no dia do embarque previsto. Mais uma vez, o senhor dos destinos, mostrou-me que nada se controla, pelo menos, comigo, e não tenho esse poder de fazer com que os acontecimentos se cumpram quando eu quero.

Não vou usar novamente a palavra frustração, mas hoje estou aqui, olhando para o céu e decidida a engolir mais essa, e esperar o próximo vento passar, para embarcar na hora que a vida determinar.

Lembrei  de uma música que sempre repeti, talvez, a melodia tenha ficado registrada no inconsciente, de onde dizem vir os desejos...

“ Deixa a vida me levar...vida leva eu...sou feliz e agradeço por tudo o que Deus me deu”. É, Sr. Zeca Pagodinho, sempre vou repetir esse refrão quando novamente decidir fazer qualquer planejamento.

 E sigo... cantarolando.

DRIKKA INQUIT

terça-feira, 19 de setembro de 2017

EU FALO DE... PLÁGIO E PLAGIADORES

Aproveitando a recente polémica do cantor acusado de plagiar alguns dos seus grandes sucessos e depois de ler muitas opiniões vulcânicas sobre o assunto, decidi vomitar as minhas postas de pescada sobre o tema, ou não fosse eu acometido de intenso prurido e alergia pura quando há plágio. Aliás, como muitos saberão, alguns dos meus castigos no Facebook aconteceram após as denúncias públicas que fiz de algumas páginas onde essa prática é recorrente.

Este caso traz à tona algumas questões pertinentes e, sem admiração, reparei que num assunto que deveria ser consensual, existem grandes divergências e inexplicáveis contradições na hora de avaliar este fenómeno.

Não tenho competência, nem conhecimento efectivo, para poder alegar a existência ou não do crime, no entanto, como tenho dois olhos na cara e, pasmem-se, até gosto de pensar, analisei a questão, tal qual foi noticiada pelos órgãos de comunicação social (que não TVI ou CMTV) e não consegui detectar inocência do artista, mais não seja pela demonstração, de culpabilidade, clara e inequívoca, do próprio, ao alterar o registo de algumas canções, de autor para adaptador. Ah... fazendo-o somente após a bomba ter rebentado e o caso vir a público.

Mas, apesar das evidências, há sempre alguém que defende de unhas e dentes o culposo. Neste caso específico, creio que essa defesa cega prende-se mais pelo mediatismo do artista que, mesmo não estando dentro das minhas preferências musicais, não me custa admitir, é um cantor de massas e essa condição cria uma aura de intocabilidade que, até há muito pouco tempo, seria muito complicado desconstruir e combater.

Um aspecto interessante nas reacções, no Facebook, que tive oportunidade de ler, e que sempre acontece em casos mediáticos, é a intolerância, cada vez maior, à opinião de terceiros. Quando aparece uma polémica, os lados têm tendência a extremar-se e, na generalidade das vezes, acaba em discussões de teor ofensivo, para não dizer mal educado e de baixo nível, bem longe do assunto que gera a discórdia.

Nestas alturas, todos são donos da razão e, vai-se lá saber como e desde quando, transformam-se em entendidos profundos e analistas conhecedores das matrizes e leis aplicáveis. Neste caso até apareceram opinadores com vastos conhecimentos sobre a legislação e, em simultâneo, sobre questões técnicas do foro musical.

Mas o mais caricato, para mim, foi observar como algumas das pessoas que desvalorizam o plágio nas redes sociais, nomeadamente no plágio descarado aos textos que muitos autores aqui partilham, foram os primeiros a apontar o dedo à prevaricação do cantor, usando os argumentos que consideram inválidos quando se trata de plágio de poemas. Acho engraçado que neste caso venham dizer que existe plágio nem que seja por uma frase semelhante, quando em situações similares, mas menos mediáticas, argumentam que frases iguais não significam plágio mas sim formas idênticas de exprimir. Afinal em que ficamos? Por que razão querem traçar linhas distintas na hora de avaliar as situações de plágio? Será que só é plágio se os envolvidos forem figuras mediáticas? Por que razão deve existir um peso e uma medida para poemas de canções e outros diferentes para poemas apenas escritos?

Mas o mais engraçado de tudo foi ler um acérrimo comentário, feito por um individuo muito indignado pelo descaramento do cantor em usar meios tão baixos para alcançar sucesso e que, segundo a sua perspectiva, se o cantor não conseguia escrever poemas para as suas músicas que os comprasse e não roubasse as frases de outros autores. E ler este comentário foi engraçado porque, quem o fez, foi administrador de um grupo de onde fui expulso por ter acusado, com provas, este mesmo administrador de plagiar uma autora amiga, usando 14 (catorze) adjectivos, para definir o amor, e pasmem-se, na mesma sequência. Na época, este senhor teve o descaramento de me dizer que não tinha plagiado coisa alguma, apenas se tinha inspirado no texto da autora e que a sequência tinha sido mero acaso. Claro que sim... eu vi mal e nem dei conta que estava perante um texto com 14 coincidências, coincidentemente alinhadas.

Se por um lado, ter lido o comentário deste senhor, fez-me rir e recordar o que o mesmo fazia, por outro lado deixou-me tremendamente satisfeito pois os meus argumentos da altura fizeram um plagiador virar acérrimo combatente do plágio.


MANU DIXIT

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO

Um Prefácio

Tudo que escrevo é autobiográfico e é autorretrato de uma artista nua,
Nua em carne, pele,  sexo, origem, latência...
A escrita são os meus ossos do ofício, os meus pulmões para os berros,
Minha linguagem secreta com a Arte, meus artifícios e queixumes,
Até porque sempre busco desabitar as coisas que me habitam,
As tralhas da minha casa interna.  Trago isso primeiro do inconsciente,

E trato de entornar tudo até poder tomar o que foi escrito como as consciências do dito, mas nas consciências já sou a outra, a que corrige, corta, aponta a coesão e faz coação com requintes de carrasca... Já não gosto tanto desta e prefiro sempre a primeira, a que se joga no abismo por desequilíbrio, a bamba da corda ou a tonta. 

Penso que não há qualquer segurança para quem escreve.  A escrita é muito mais ruidosa e arriscada que os temas da vaidade.  Eu, particularmente, gosto do defeituoso e quanto mais defeituoso for o trajeto melhor será o meu encontro com o que eu leio do escrito.  O sublime está neste fraturar do tecido, no rude dos pontos, assim como o seu grotesco pode ser o belo do versar. Um grito é um defeito? Um choro, um defeito? As fragilidades do humano? As fraquezas são defeitos. E que sejam, porque nos tornam menos fantasmas do que já foi vivido.  As memórias do imperfeito dão convicção ao movimento.

Eu habito essa casa-escrita, mas sempre de malas prontas para partir para outra habitação, e assim vou construindo novas arquiteturas e me desvencilhando dos casulos, sempre tão confortáveis. Não me ofereço para ser o fantasma dos meus próprios poemas; dos quais me despeço com certa parcimônia, com uma boa dose de constrangimento, a necessária do Advir. A mobilidade é que sempre me chama para o salto seguinte e se a reminiscência me provoca, eu a levo junto para um novo experimento de salto.

Não me preocupo em ser uma pessoa que escreve com reconhecimento em círculos literários, porque os círculos que me fascinam são outros: bacias, mandalas, todas as formas redondas e a circularidade das palavras, essa tarefa de ser mãe das próprias ideias. E parir indiscriminadamente sem permitir que me rotulem em algum ponto periférico-circular entre os que muito falam.

A escrita, se me defino nela, é Maior que o cálculo de viver. Os planos? Os projetos? A escrita é o antes do plano ou do projeto, porque antecede  o pronto da tipografia com seus consertos finais, é antes o porém, o entre, mais conectiva que substantiva a princípio. É o nada que nos liga, como o cordão que nos liga ao primeiro mundo. Depois vem o outro novo mundo e a certidão de nascimento. O substantivo. O verbo. O sujeito. O verbo.

Escrevo para que os outros leiam. Se a Vida nos bastasse, lembrando Fernando Pessoa, por que faríamos Arte? Fazemos Arte porque somos crianças ávidas pelo Amor. E nossa expressão requer a mesma paciência que as crianças exigem para as suas garatujas.  Tenham paciência com a leitura de toda escrita. Todas merecem respeito e afago. Aos que trabalham com margem de lucro, sim, a esses podem pedir explicações.

Escrevo enfim para não morrer de inanição ou não enlouquecer o outro que me vê ainda alguma qualidade. Não herdei nada, talvez nem genes; mas deixarei esses escritos como um legado de alguém que amou fazer parte desse mundo através da escrita.

domingo, 17 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES

Concordo com a assertiva de que um país se faz com homens e livros e tenho esperança de que possamos vencer esta nova ditadura da ignorância com roupagem moderna e midiática.

Existe um mundo para além dos reality shows e filmes enlatados e mídias sociais repletas de tolices com status de verdade.

É precisamente a incapacidade de formar imagens mentais, devido principalmente a este bombardeio sistemático no cérebro, que estimula o uso de drogas e coisas afins que por sua vez prometem as ilusões temporárias de experiências alucinógenas e definitivamente nocivas à saúde.

Trecho de Crônicas de um olhar diferenciado. Atrocidades Cotidianas.

sábado, 16 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... BÁRBARA LIA

mana, estamos sozinhas nas madrugadas

Mana, estamos sozinhas nas madrugadas puro estanho
Nas tardes de farpas atravessando rios de intolerância
Somos nós na janela prontas ao salto e a última lágrima
Estilhaçadas antes do nosso sol dissolver no ar da beleza
Mana, estamos sozinhas e esquecidas feito flor no deserto
O estatuto adâmico a voz das encíclicas as falsas posturas
A desnivelar nossa carne e alma, nos leva à rebeldia
Veja o rio caudaloso de sangue de todas que foram mortas
Uma espécie de maldição que se carrega nas dobraduras
Cada mulher leva em cada vínculo de osso e carne o sino
Quando ela passa urge que pareça uma monja e que não soe
Que nada soe que tudo cale que sua alma estelar se apague
Urge que ninguém perceba o palpitar vivo em cada poro
– A invisível que atravessa um pátio – para sair viva
E o rio de sangue de todas que morreram só por ser – única –
Aumenta à proporção do desgaste de tudo que é poesia
Mana, estamos sozinhas nas madrugadas nas noites no deserto
Lembre de não deixar pendências, escrever teu testamento
E olhar nos olhos como se fosse último olhar a cada tchau
Que dás ao teu amor

Bárbara Lia

-- escrevi ano passado diante do impacto de tantas mortes de mulheres e transsexuais, esta coisa que nunca acaba...
é preciso que se abra um debate sem precedentes que resulte em mudanças estruturais em uma sociedade que não permite que mulheres andem de táxi, ônibus, urbe, seja lá o que for... isto é sério, é muito sério... não podemos ser invisíveis neste mundo, não podemos extrair com pinça nossa beleza, sensualidade, carisma, é preciso punição exemplar para os estupradores, não estas penas complacentes que enojam... duros tempos...


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

EU FALO DE... ENRIQUECIMENTO DA LÍNGUA


Na sequência da minha participação no 2º Festival de Poesia de Lisboa (organizado pela Helvetia Edições) e tendo em consideração o acolhimento que as minhas palavras tiveram juntos da plateia, decidi escrever sobre um dos assuntos que abordei, mas de forma muito sintética, e que merece uma reflexão mais aprofundada.

Em determinado momento da palestra, quando falava de benefícios da era digital nas criações poéticas, mencionei a adição de novas terminologias no léxico e, para aligeirar um pouco, dei o exemplo a palavra upgrade. Todos nós já lemos em algum momento esta e outras palavras, relacionadas com as tecnologias, num ou noutro "poema".

Abro aqui um parêntesis para dizer que coloquei a palavra "poema" entre aspas pela simples razão de mais facilmente identificar o objecto de análise, porquanto muitos só serão poemas na cabeça de quem escreve.

Retomando o fio à meada; usei o termo upgrade como poderia ter usado muitos outros que surgiram com a evolução informática e tecnológica.

No entanto, apesar da minha tolerância ao modo como cada um cria os seus textos, e porque o tempo disponível não me permitiu aprofundar mais este aspecto, sou apologista que, sempre que possível, nós autores, devemos evitar os inglesismos (e outros ismos). No caso concreto do exemplo dado, a língua portuguesa tem palavras que podem muito bem ser utilizadas em detrimento de upgrade... (actualizar, actualização, melhorar, melhoramento, incrementar, incremento, etc).

Eu acredito, e defendo, que aos autores cabe a tarefa de enriquecer o seu próprio idioma, mas também acredito que não existe maior enriquecimento do que evitar estrangeirismos e dar primazia aos termos equiparáveis e já existentes. O enriquecimento não se faz apenas com a adição de novas palavras ao léxico; o enriquecimento faz-se, sobretudo, com o uso rigoroso, regular e constante, da riqueza e diversidade já existente na nossa língua.


MANU DIXIT

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... TACIANA VALENÇA

Acidente

Na curva da estrada um tombo. Todo o carregamento espalhado pelo caminho. Eram só poesias. Apenas poesias. Certo, estava lotado, abarrotado de sentimentos, deve ter sido o peso, o peso dos versos entonelados. Estavam agora largadas no asfalto. Algumas voaram morro abaixo, outras subiram aos céus. Foram tantos grudados na pista molhada!

Um acidente apenas, um trágico acidente numa BR. Mas o pombo ciscou e sapateou em cima de um deles, achando pouco deixou marcado seu excremento esverdeado. Nossa, isso é que é zombrar de sentimentos. Uma delas, talvez a mais leve e romântica estava presa a um galho. Lembro bem dela porque havia um coração mal desenhado à mão.

As demais seguiram caminhos diversos pelo céu aberto. A menina que no parque chorava sentiu algo cair em suas mãos, seriam palavras vindas do infinito? Mas enfim as palavras tornaram seus sonhos mais bonitos. Ao mesmo tempo um casal sentado num banco, que brigavam sem nem mesmo saber o porquê acabou lendo juntos a mensagem do além e sem demora eram um só bem.

Tantas foram as mensagens que agora de nada me serviam. Eram mesmo destinadas ao vendo, ao acaso, ao relento…

Agora me despeço dos versos, esses bipolares amigos das horas. Nem sequer mais um deixarei escrito em vagas memórias.


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO

 "Outros Cantos" e a estética da sobrevivência.

Há narrativas-correntezas tão fortes que nos fazem mergulhar no outro que também somos. Parece algo muito fora de nós a princípio, dada a vertigem do encontro, mas vamos entendendo no percurso da leitura que é realmente da nossa intimidade que se alimenta, da nossa imediata identificação, dessa afinidade aguda que pode até mesmo nos interrogar e que se lastreia para dentro, nos investigando os porões, revirando os guardados, revelando vozes segredadas, aquelas que não cuidamos de registrar e que vão se misturando ao chão da vida, trajetórias de leituras que nos escapam... E é partindo deste princípio, do meu lugar de leitora e educadora, ambas encantadas, que ofereço uma modesta contribuição de olhar a "Outros Cantos" de Maria Valéria Rezende. Porque, se nos encantamos e ainda não fomos castrados nesta habilidade, é pelo olhar curioso, visitado por outros sentidos, que nos deixamos reconhecer no texto lido e amado. 
              Em "Outros Cantos", ao me deparar com Maria, as Marias que habitavam em mim ressoaram. Dentro de mim uma nova jornada mítica: significar o que compreendo como estética da sobrevivência. Algo de delicado e outro de doloroso me ocorrem para tentar descrever esta estética de histórias que se assemelham às minhas e recriam pela cultura este diálogo permanente e polifônico. Como recebo Maria a partir de minhas Marias? As Marias que não deixei vingar, as que calei de saída, por medo e resposta antecipada contra o que parecia destino? Perguntas teimosas me fazem companhia pelo trajeto da leitura, às vezes estreitando a vista a fim de enxergar melhor esses jogos de perder e achar. Não sei se alcanço o todo de dizeres que vão brotando da pedra, a minha é a mais bruta. Procuro aqui e ali um desvão, um atalho que nos una, e que me faça encontrar Maria, a educadora, a nordestina, a viajante, a corajosa - num feito de matriochka. Um engenho elaborado entre escrita e significação que vou costurando junto à cartografia do sertão. O sertão que se biparte em geografia e sentimento. Patuá de sertão é para sempre esse carregado de memórias no peito. 
                  Mas eis que surge a imagem que persigo: a viagem. O caminho sensível pela alma de minha leitura amorosa, alma porosa, cálida e dedilhada pelo risco e invento dos sobreviventes. Tento sintetizar minhas percepções e palavras como "denso, perturba-dor, delicado" são os melhores qualitativos que encontro. Ouso trazer Maria e "Outros Cantos" para minha coleção de imagens. Guardo este segredo de quem escava histórias em mil camadas e que se instaura na convergência da leitura com a educação: dois amores e uma espécie de circuito inacabado que encarna no mundo como aliança quixotesca, subversiva, desviante. "Outros Cantos"  acende em mim a tradição das almas velhas. Dou rendas à escritura: cheia, vazia, entrelaçada, torcida - que não guia, mas nos torna cúmplices da narrativa, sujeitos clandestinos, desejantes e sonhadores.


Maria Valéria Rezende é ganhadora do prêmio Jabuti e do prêmio Casa de Las Américas.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK


Ando pelas ruas do Recife com olhar de distanciamento, recolhendo na memória relíquias. Com uma certa saudade das ruas em que crianças corriam e brincavam e hoje passam carros barulhentos com as suas buzinas apressadas. As casas com seus pés de jambo e azeitonas que hoje transformaram-se em prédio colados um ao outro e pouca sombra. Os apitos dos vendedores ambulantes que perderam-se nas lembranças infantis. Ainda ouço passos, vozes, da família reunida na varanda, na casa do meu avô, misturando-se com a melodia das folhas dos coqueiros a dançarem no vento, o cheiro do queijo coalho derretido com mel de engenho, aquele sabor do café com bolo de rolo, o suco de graviola, o sorvete de mangaba e tantos sabores que só encontrava nesse pedaço de mim.

Deixo esse Recife de Manuel Bandeira, Ariano Suassuna, João Cabral de Melo Neto. Alberto da Cunha Melo, Clarice Lispector, e tantos outros imensos escritores e poetas, referências da minha trajetória de vida e caminhos, retidos em um lugar especial, do lado de dentro.

Hoje a palavra saudade chega com leveza e sensação de um tempo muito bem vivido e desfrutado em cada instante. E no encontro com amigos e família, constatei as alegrias que deixamos no coração e nas memórias daqueles que partilhamos vivências. E nas marcas do tempo, ficam ali, guardadas a serem resgatadas quando um olhar, um sorriso, uma palavra se reencontram. Voltei a Recife, como o fiz, inúmeras vezes, após abraçar o Rio de Janeiro como parte de mim. Mas nesses cinco meses, regressei como quem se despede a cada dia. E essa percepção de “talvez não passe mais por aqui”, faz com o que o olhar, o sentimento, sejam mais atentos aos detalhes e até mais carinhosos com aqueles que cruzam o nosso caminho.

E fui tão acarinhada nesses dias que a palavra saudade transformou-se em gratidão envolvida por um sorriso de alegria e aconchego. Foram tempos de incertezas, trabalho árduo e muitas conquistas. Foi como se o ninho estivesse preparando o pássaro para um voo maior pelo céu sem limites. E em uma manhã de sol intenso, ouço no vento... “Vai... voa!”

Recife, local onde nasci e criei laços, e pouco permaneci. Mas é aquele lugar de abrigo, de sol, de sabores e docilidades. E é o local onde retornei, várias vezes para respirar e me inspirar. O ar abafado dos dias ardentes e a brisa refrescante das noites enluaradas. 

O cheiro de maresia e a sede saciada com água de coco. E palavras, encontros, leituras, poesias, luminosidade.

O ponto inicial, o ponto de partida.

Recife que me abriga e me liberta.

Para um novo olhar, um novo tempo, um novo voo.


DRIKKA INQUIT