sábado, 22 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK

A chama invisível queimava e crepitava em meu pensamento por horas seguidas, enquanto eu ardia no inconformismo do meu ser. Percorro pelo espaço de egos e ecos, desde quando me fiz pertencer ao mundo das artes, seja produzindo, participando ou observando.

E a incoerência nisso tudo, é que no universo, em que a sensibilidade e o ser são a expressão máxima para a criação, seja ela na poesia, pintura, música, ou qualquer outro movimento literário ou cultural, é onde a banalidade, a pequenez e a futilidade do humano, se expandem de forma nem sempre óbvia, mas crescente.

Donos do mundo e da verdade, por terem o dom divino do encantamento, creditam e ditam aos pobres mortais que apreciam e se deixam envolver, a ditadura do EU.

Há décadas atrás, a vida pública daquele que detinha esse dom de professar a arte, era certificada ao ultrapassar o limite das fronteiras, do tempo, e só dominava outros espaços com talento comprovado por obras avaliadas pela crítica especializada, fã clube presencial, e análise de mercado.

Sigo por anos intermináveis, artistas de diversas formas, acreditando na eternidade da boa arte e aprecio esses gênios que foram capazes de superar o limite do tempo, com o esforço, inspiração, transpiração e talento para hoje fazerem jus ao título e nome que carregam.

Mas a era da comunicação invadiu o intervalo entre a coerência, a construção, a obra, a criação, e transformou qualquer palavra em poesia, qualquer livro em bestseller, qualquer músico em personalidade, qualquer pessoa em autor, qualquer artista em famoso, e qualquer pintura em obra de arte.

Sou aberta a todas as formas de expressar o que transborda da alma, e acho que o ser humano tem todo o direito de fazê-lo, e defendo isso, dentro dos limites que esse novo tempo não determinou. Mas cá entre nós, essa janela para o mundo não é para “todos”.

Uma postagem nas redes sociais e todos são venerados e aplaudidos nos bastidores invisíveis do quem tem mais curtidas e seguidores. E intrinsecamente legitimam, sem critérios, quem é ou não senhor do universo artístico ou literário, pelo menos naquele espaço que circula e dá voltas por todos os continentes.

E nos bastidores, ah, o circo é montado e por todos os lados, tapetes estendidos, também são puxados, em um piscar de olhos, na cadeira reservada para que o amigo menos talentoso, mas vantajoso, possa ocupar para o segundo de flashes e postagens firmarem a notoriedade daquele instante. Alguns olhares mais atentos e éticos observam silenciosamente, o burburinho que se alastra igual rastilho de pólvora, no disse-me-disse que circula, no ar que sufoca e abafa verdades.

Academias de letras aceitando semianalfabetos, autores despreparados, atores inexpressivos, exposições fotográficas registradas por celular, livros mal editados, compositores desacertados, cantores desafinados, jornalistas então... nem comento. Postam um vídeo aqui, um texto ali, e são aclamados. Produtores que fazem qualquer evento, superlotando o espaço, sem a responsabilidade com as vidas humanas, sem certificação e vistoria.

E por essas e outras, nessa era digital, caminha-se para a banalidade da expressão artística e cultural, onde todos são o que desejam, só porque se olham no espelho e decidem, e aquele amigo solidário curte e partilha, e assim nasce, quando menos se percebe, um deus ou deusa crepitando nas brasas da suposta e momentânea fama, criada para ser extinta minutos depois... ou não.


Até onde vai o limite do ser criador... E nós, até onde permitimos conduzir a perpetuidade do belo, do legítimo, da arte, nesse clicar de curtidas instantâneas, jogando mais lenha na brasa que surgiu para ser apenas... cinzas.

DRIKKA INQUIT

sexta-feira, 21 de julho de 2017

EU FALO DE... CONVITE AO UNIVERSO LITERÁRIO LUSÓFONO

VAMOS FALAR DE TUDO O QUE ESTÁ RELACIONADO COM LITERATURA

O objectivo do blogue TOCA A FALAR DISSO sempre foi ser uma plataforma de discussão das temáticas relacionadas com a literatura.

Ao longo dos anos fui tentando que os autores se interessassem em colaborar com textos da sua autoria mas as contribuições foram sempre escassas e a conta gotas.

No entanto, com a parceria TOCA A ESCREVER/IN-FINITA, e o interesse demonstrado por muitos autores lusófonos, que não portugueses, surgiu a possibilidade de revitalizar este espaço e dar-lhe um uso mais regular.

Assim sendo, aproveitando algumas rubricas já existentes e criando outras, aos poucos estamos a chegar mais perto de alcançar a interactividade desejada desde o início.

Mas não vamos querer ficar por aqui e queremos que cada vez mais autores, editores, divulgadores, e demais agentes ligados ao mundo da literatura lusófona, vejam este blogue como um espaço que valoriza opiniões, incentiva a discussão saudável e onde todos serão bem-vindos.

Por isso, como fundador e coordenador do TOCA A FALAR DISSO, convido todos os interessados a participarem com as suas opiniões e conceitos, com os seus textos críticos, ou simplesmente, com dissertações literárias.

Os interessados devem enviar foto, mini-biografia e texto para os respectivos e-mails:

Secção Portugal - VAMOS FALAR DISSO... coordenador Emanuel Lomelino

Secção Brasil - FALA AÍ BRASIL... coordenadora Adriana Mayrinck

Secção África - FALA ÁFRICA... Coordenador José Manuel Martins Pedro

Os textos serão publicados por ordem de chegada e partilhados em diversas páginas de Facebook.


MANU DIXIT

quinta-feira, 20 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... LÚCIO MUSTAFÁ

Ser Político:
UMA BONDADE SEM FIM

No futuro se acordará e se dirá, sem medo de errar, que a pessoa mais honrada que existe é o político, pois no futuro, ser político será aquilo que realmente deve ser, será ser a pessoa escolhida por ser a pessoa melhor e mais capacitada para aconselhar, propor e mostrar a saída para todo e qualquer problema que se apresente diante dos cidadãos.

Nesse dia, do futuro, quando tudo for já bom totalmente, para todos e todas, as pessoas ao pensarem nos políticos dirão:

"Como é belo e bom saber que o político está cuidando de nós, ao fazer a legislação está resolvendo todos os problemas que os seres humanos possam vir a ter. "

"A cidade é mais linda porque existe o político, porque, ser político é olhar para um problema e ter na mente uma solução, é se deparar com um demente e não seguir seus passos não, é perceber quando de longe vem alguém lhe impedir, a fazer o que deve a mostrar o que não está bom.""

"Ser político é legislar a partir do necessário, sair nas ruas e perceber o que se precisa, imediatamente, fazer, ao entrar em casa, transformar o percebido em projeto-lei, ir para o trabalho, pedir a palavra e proferir o discurso decisivo."

"Ser político é ser um grande ouvidor, é ir até quem grita com os braços abertos e as mangas arregaçadas e o coração cheio de amor. É perceber quem propõe o justo e encampar sem empacar, é ser um colecionador de imagens da realidade em andamento para dar encaminhamento à realidade do porvir, é ser um ser lindo por dentro que recolhe o feio e o nojento para a lavagem necessária, para a bonitização do que foi enfeiado pelo tempo e por malfeitores. "

"Ser político é ser uma reformador do que foi quebrado, um restaurador, um arquiteto da cidade ideal."

"Ser político é ser uma pessoa altamente educada e um altíssimo educador, que diante da mal-educação a redireciona para os bons modos, para a sensatez."

"É entender que as agressões não levam a nada e que parlamentar é o que resolve e encaminha as soluções, por isso que políticos são também chamados de parlamentares."

"Ser político é ser craque em história, é saber todas as histórias do que já se acertou e do que ja se errou ao se tentar administrar as cidades e então é ter a história como mestra de vida (maestra viatæ, como diziam os romanos antigos) como aquela que mostra o passado para que se possa, no presente, fazer o futuro ser lindo, bom e feliz para os cidadãos."

"Ser político é ser extrovertido, é ser desinibido e desinibidor, é ser um conversador de bons papos, um desmascarador de conversas moles, um que tem papo-firme, isso é ser político."

"Ser político é coragem de olhar de frente a miséria e de olhar de frente até a morte, mas nesse olhar ser competente suficientemente para propor mutirões para erradicar a primeira e afastar a segunda."

"Ser político é não ter religião sendo um diplomata ao lidar com os líderes das religiões para os convencer de que lugar de religião é na igreja e que na sociedade civil a sociedade que filosofa é a composta pelos civis."

"Ser político é ser anti-militarista sem ser anti-militares, é ser o líder e o treinador maior dos militares, para que eles se compreendam como o que são: como colaboradores de um projeto maior que é o projeto de propiciar o entendimento entre todos os cidadãos e a felicidade deles evitando que os dramas aconteçam e todos possam, com civilidade, resolverem todos os seus problemas."

"Ser político é ter honra e dar honra e jamais se desonrar com coisas desonrosas."

"Ser político é jejuar quando a justiça não puder ser feita e é banquetear junto com o povo quando o Estado oferecer o jantar aberto ao público."

"Ser político é dar o exemplo da importância da redistribuição dos bens, abdicando de privilégios, doando o que recebe em acréscimos para projetos benéficos ao ensino da generosidade entre os cidadãos."

"Ser político é ser filósofo, pois não se pode cuidar de humanos sem ser o maior entendedor de humanos que existe."

"Ser político enfim é perceber e viver o fato de que a maior de todas as vantagens é a vantagem de ter sido escolhido pelo povo para representá-lo porque o povo percebeu que ele é a pessoa mais adequada para fazer a felicidade chegar para todos, totalmente."

No futuro vai ser assim: ser político será uma bondade sem fim.

mini-biografia: Lúcio Mustafá

Nascido em Barbacena (MG) em 20 de maio de 1961, passou a infância em Brasília e a juventude e vida adulta na Cidade do Recife. Viveu entre hippies, mendigos, favelados, numa fase na qual aderiu à teologia da libertação tendo participado do grupo de Don Helder Câmara. Viveu em Roma de 1994 aos albores do século XXI. Poeta, escritor de contos, de crônicas, artista plástico, filólogo pelo Institutum Altioris Latinitatis Romae e filósofo pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Lúcio Mustafá, que foi um dos fundadores do Movimento dos Realistas Urbanos, é criador da filosofia Panamorista, que se propõe a corrigir um detalhe esquecido por todas as outras filosofias que vieram antes dele, que é o detalhe de mostrar a possibilidade de Amor Incondicional do Ser Humano consigo mesmo e com toda a natureza. As influências de Lúcio Mustafá são várias e vão desde da literatura regionalista nordestina, às teses do Círculo Linguístico de Praga, à literatura e arte italianas.



quarta-feira, 19 de julho de 2017

EU FALO DE... ORGANIZADOR DA COLECÇÃO STATUS QUO

Quando, em finais de 2009, comecei a frequentar eventos literários (quase de forma compulsiva) estava longe de imaginar que passados oito anos seria bem mais que um mero interessado.

Foram oito anos de enriquecimento pessoal, melhoramento como autor e, acima de tudo, de experiências incríveis e gratificantes. Começando pelos lançamentos do meus livros e tudo o que veio associado, sejam presenças em programas de rádio e televisão ou nas feiras do livro (em Portugal e na Suiça); passando pelos convites para apresentar e prefaciar livros de outros autores, moderar eventos ou coordenar antologias, e, ultimamente, para organizar concursos literários e colecções de livros.

Se da maioria dessas experiências fui escrevendo ao longo dos anos, também é verdade que desta última ninguém, para além dos envolvidos, ouviu falar antes da Feira do Livro de Lisboa 2017.

Em primeiro lugar devo mencionar que a ideia de criar uma colecção de livros de poesia, em formato livro de bolso, surgiu, por mero acaso, numa conversa com os responsáveis da Edições Vieira da Silva, num dia que passei pelo escritório desta editora para buscar livros relativos ao patrocínio que fazem ao meu blogue de divulgação de poesia lusófona (outra experiência fantástica). Do nada, o editor António Vieira da Silva falou-me da sua pretensão em criar algumas colecções de livros de bolso e, mediante a forma como expôs a sua ideia, demonstrei, de imediato, interesse em aprofundar o tema e colaborar. Com o tempo acertaram-se princípios base, limaram-se arestas e partiu-se para a acção, com o objectivo de ter os sete volumes da primeira colecção (Status Quo), pronta a tempo e horas para ser apresentada, em Junho, na Feira do Livro de Lisboa 2017. Estávamos em Abril.

Dada luz verde, avancei prontamente para os primeiros contactos com os autores que, em minha opinião, poderiam ser mais-valias neste género de trabalho. Aos que demonstraram interesse em participar, foram-lhes comunicadas todas as condições e particularidades da colecção, entre as quais, a mais relevante para mim, a isenção de qualquer pagamento por parte dos autores, com a editora a assumir por inteiro os custos de edição.

Depois foi só esperar que os autores me enviassem as suas propostas de livro, que analisei, revi e, de comum acordo com os autores, alterei sempre que necessário.

Terminada essa fase, cabia-me a responsabilidade de enviar os ficheiros para a editora que, a partir desse momento, trataria de todas as questões logísticas com os autores, nomeadamente as aprovações de ficheiros finais, capas, badanas e sinopses, antes das assinaturas dos respectivos contratos. Por minha exigência, somente após os contratos assinados é que os ficheiros eram enviados para produção.

A nível pessoal, este projecto foi agridoce porquanto nem tudo correu com eu pretendia e a colecção não ficou totalmente pronta para a Feira do Livro de Lisboa 2017 (apenas cinco números estavam disponíveis no certame). No entanto, e apesar das inúmeras contrariedades e obstáculos que surgiram (escreverei sobre isso noutra ocasião), não posso deixar de me sentir honrado, não só com o convite, da Edições Vieira da Silva, para organizar este projecto, mas também, e certamente em maior medida, com a confiança que os autores depositaram em mim.

Ser o organizador desta colecção foi mais uma experiência enriquecedora que tive o privilégio de viver e que me será muito útil em projectos semelhantes que podem, e vão, aparecer no futuro.

Sei que, independentemente das vozes contestatárias (são poucas mas existem), tenho algum capital de credibilidade juntos de muitos autores e isso pode e deve ser usado por mim para benefício de todos, principalmente dos autores que confiam em mim e nas minhas capacidades.

Para terminar esta dissertação quero reafirmar o que há muito venho dizendo: a satisfação que estas experiências me proporcionam são os meus verdadeiros prémios literários.

MANU DIXIT

terça-feira, 18 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO


"Minha avó sábia e minha avó louca"
Minha avó era sábia. Mas até aí Inés é morta. Todo mundo teve ou inventou uma avó sábia pra si. Mas ouço outra voz aqui que diz que isso era "coisa de outros tempos". No tempo antigo dos bondes, onde avós realmente envelheciam e se tornavam sábias. "Nossa, que coisa piegas!" Esta é uma voz nova recente que adquiri há pouco numa das mídias sociais. Por favor, vozes se calem! Nossa, ótimo! Posso falar sozinha aqui? Tudo bem. Estou conseguindo escrever de novo e digo que só vou parar depois de três ou quatro parágrafos. Por favor, não interrompam. Claro que a leitora, o leitor pode se retirar a qualquer momento. Prometo não intervir.


Volto ao início, algo já redundante. Minha avó era sábia. Mas não era só isso. Minha avó era a mais sábia de toda família, família matriarcal. E os homens dessa linhagem sabem do que estou falando. Mas espera, eu também tinha uma avó louca que pareava com a avó sábia, rostos da mesma lua. Dizem até que elas se conheciam muito e tomavam banho de rio juntas. Minha avó sábia disse certa vez: "eram os peitos mais bonitos que eu vi na vida". Achei lindo e libertador que minha avó sábia soubesse e pudesse reconhecer a beleza e a natureza da minha avó louca. Era realmente bonito de saber desse despojamento. E sempre que lembro dessas e outras frases desejo que as meninas tenham a sorte de ter uma avó sábia como a minha, pois ela me criou.

Caiu uma vírgula aqui. E o que seria da diferença no mundo se não existissem as avós loucas? O mundo certamente não precisaria de avós sábias. É um pensamento teimoso que tenho. Mas eu vou catar esta vírgula aqui de volta, porque minha avó louca foi a primeira mulher da família a ter um ofício só seu. Era costureira e daquelas! De mão cheia! Minha avó louca foi a primeira a andar de cabelo curto na pequena cidade de interior que vivíamos, cidade onde também nasci. Minha avó louca foi a primeira mulher a andar de calça comprida, a primeira porque copiou de uma revista de moda francesa e costurou um modelito só para ela. Ela tomava banho de rio sem roupa. Ela não levava desaforo para lugar nenhum. Era filha de uma índia que saiu de sua aldeia para viver com um homem branco, que mais tarde a abandonou com quatro filhos. As Iracemas não eram românticas naquele lugar. A bisavó índia tratou de espalhar os filhos e minha avó louca foi dada para casamento aos treze anos para um viúvo de quase sessenta. Mas era um mundo antigo, embora já fosse moderno.

Outra vírgula, esta mais gordinha, a definidora de espaços que marcam o entre, o entre nós. Minha avó sábia e minha avó louca tinham em comum um homem. Meu avô paralítico. Meu avô que tinha sido entregue a um casal de empregados para adoção. Mas por que isto aconteceu? Porque meu avô Augusto, um comerciante português, resolveu que não iria criar filho aleijado e para retirá-lo de casa - o deu para os caseiros, André e Teodora - claro, junto com um pedaço de terra - para que não houvesse perigo de devolução. Este avô paralítico, por destino ou o que seja, também se tornou comerciante, dono de quitanda e um dia se apaixonou loucamente por minha avó louca, a filha da índia - que tinha desaparecido no mundo nesta parte da história. Quando isso aconteceu, minha avó louca já vivia sozinha com cinco filhos do viúvo, tinha fugido para bem longe. Era empregada doméstica e limpava as janelas de uma casa grande quando meu avô paralítico viu suas pernas mestiças e ficou encantado. Tiveram quatro filhos, um atrás do outro, cada qual mais bonito e rosado que o outro. Até que. Até que ela desistiu dessa coisa toda. Não era para ela. Arrumou um amante aviador e fugiu para São Paulo, deixando todos os filhos com meu avô manco e quitandeiro. Resumindo: meu avô distribuiu os filhos e começou a beber. Ia definhando na vida até que. Até que encontrou minha avó sábia, viúva, católica sincrética, três filhos. Casou-se com ela imediatamente. Recolheu os filhos espalhados e construiu uma casa boa que abrigasse a todos. 

A avó louca? Foi para o Rio de Janeiro. O aviador? Cometeu suicídio. Ela, a louca, enfim se casou com um homem evangélico e padeiro. Teve uma última filha, mas ninguém sabe com quem. Passou os últimos dias como evangélica radical, pregando moral a todos que se aproximassem. Não cortava mais o cabelo - que chegava até os joelhos, não vestia mais roupa curta ou que mostrasse os braços. Não se maquiava mais nem gostava mais de enfeites. Passava o dia ouvindo a rádio relógio, marcando sei lá que tempo em sua cabeça. Não gostava de crianças, não gostava de bichos, não gostava de mim. Isso eu lembro bem. Morreu de câncer no fígado, mas viveu bastante, por quase nove décadas.

Minha avó sábia criou vários filhos, não sabia nem dizer qual era seu qual era da outra. Protegeu todos, adotou netos. Criou bichos, plantas e frustrações. Lágrimas, tristezas, solidão de mulher na casa boa. Perdeu filho jovem para tuberculose. Perdeu meu avô, o coxo, para a bebida. Sofreu acidente. Ficou coxa, manca, passou a usar muletas, cadeira de rodas. Perdeu a casa por dívidas, perdeu netos e mais filho, perdeu até fazer parar o coração. 

Fico aqui olhando passar aquelas avós - na zona vermelha da minha memória fragilizada. Estou no tempo da matrioska. Eu, mulher que vai entrando na casa de ser avó. E gosto de lembrar e recebê-las em mim como cultura, linguagem, ferramentas para o mundo que se torna água. Não consigo distanciá-las mais, talvez a louca tenha sido mais sábia e a sábia tenha sido - de fato - a louca. Elas se mesclam na mesma pessoa, na mulher que me tornei e me torno todos os dias - sábia e louca, louca e sábia, cheia de contradições, bipartida, repartida, enigmática, solitária em meus afazeres, deserta em minha sensatez, absurda em minha loucura. E não posso, não devo renegar nenhuma delas, porque essas mulheres é que me habitam. Quem quiser que me conte outra.

Patricia Porto

mini-Biografia: Patricia Porto

Graduada em Literaturas Brasileira e Portuguesa, Doutora em Políticas Públicas e Educação, professora e poeta, publicou a obra acadêmica "Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da Literatura” e os livros de poesia "Sobre Pétalas e Preces" e "Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos". Participou, ainda, de coletâneas no Brasil e no exterior, integra o coletivo Mulherio das Letras e é colaboradora do portal da ANF (Agência de Notícias das Favelas).


segunda-feira, 17 de julho de 2017

EU FALO DE... O DESPERTAR DA ALMA PORTUGUESA - in sonetos

Podem conhecer alguns poemas do livro neste link

Um dia, em Ansião, aquando da apresentação que fiz a um dos livros do saudoso Vítor Cintra, falei um pouco sobre o que é a minha convicção sobre o ser-se poeta, e passo a transcrever:

"... ser poeta, para além de escrever versos sobre sentimentos humanos e criar uma obra literária, é investigar, processar informação e transmiti-la. Ser poeta é também descobrir e partilhar sabedoria e conhecimento tal como os professores fazem com os seus alunos."

Hoje, mais que nunca, por consequência do meu trabalho de divulgação de poesia lusófona, reforço esta ideia, porquanto tenho recebido alguns livros que encaixam na perfeição no conceito defendido nas palavras transcritas.

E um dos livros é este: O DESPERTAR DA ALMA PORTUGUESA - in sonetos, de Cláudio Amílcar Carneiro.

Não é novidade para ninguém o meu apreço pela estrutura dos sonetos e a minha admiração por todos aqueles que os fazem tal como mandam as regras. Se a este gosto pessoal juntarmos a tal característica didáctica ficamos na presença de um livro bem a meu gosto e que representa, em grande medida, o que deve ser a arte de escrever poesia. E não estou a falar dos aspectos estéticos e/ou estilísticos. Estou, essencialmente, a referir-me aos aspectos menos visíveis mas que são demonstração clara do valor daquele que escreve: o trabalho de pesquisa e construção poética, o apurado conhecimento das temáticas abordadas e das regras a aplicar dentro da estrutura utilizada, e também, mas não menos importante, uma tremenda consciência de autor no saber executar e produzir, com cabeça, tronco e membros, um trabalho pleno de coerência, com principio, meio e fim.

O DESPERTAR DA ALMA PORTUGUESA – in sonetos, para além de ser um belo livro de poesia, é também um excelente manual sobre a história de Portugal.

Ao longo de 14 secções, ficamos a conhecer um pouco das figuras centrais da nossa história (reis, navegantes, notáveis), somos levados a visitar (cidades, aldeias, campos, serras e rios), a conviver com o povo e a conhecer romarias, somos confrontados com factos da nossa história recente e com aspectos que nos identificam enquanto pátria - sejam de raiz política, social, cultural ou religiosa.

Este não é um daqueles livros de poesia em que o autor cria sobre o joelho e depois envolve uma resma de textos numa capa. Este é um livro de poesia em que o autor derramou muito esforço e trabalho, tanto na pesquisa como na criação e no burilar. Este é um daqueles livros que não são feitos do pé para a mão, pela entrega, séria e comprometida, de um autor com a consciência plena que a sua função vai muito além do entretenimento. Este é um daqueles livros que vale a pena ler e reler, não só pela beleza estética e poética mas também, e acima de tudo, pelo seu propósito educativo. Este é um daqueles livros em que o autor, mais do que poeta, se transforma em docente. Assim nós, leitores, aceitemos ser seus alunos.

O DESPERTAR DA ALMA PORTUGUESA – in sonetos, é um livro que recomendo sem reservas.

MANU DIXIT

domingo, 16 de julho de 2017

DAMOS VOZ A... MACVILDO PEDRO BONDE


NOITES DO MODASKAVALU (1)

Ao Salésio Massango (Kalinda), Maputo, 29 de Junho de 2017

Bom dia, não sei como esta missiva lhe vai encontrar quando a leres. É que a saúde tem sido um martírio para quem se desprende da cama sem o descanso floreado. Sei que tenho sido ausente e as conversas intermináveis de outrora escasseiam na orla da língua em sede. Estou aqui porque ontem tive a sorte de passear pelas noites do Modaskavalu, ali onde desnudamos a palavra com a sensibilidade que só tu emprestavas quando Cesário Verde lhe calcava a alma.

Pois é meu caro! Poeta sem asa, domador de sonhos ao apitar do comboio. Escrevo-lhe novamente para dizer que a casa continua a mesma e os sonhos parecem ter perdido a cor. No entanto, os textos que tingem as paredes sedentas de vida estão rendilhados à moda do Valeriano. Sinto que já não tenho pachorra para construir sentimentos de apreço. Sorrisos e aplausos continuam a vingar perante textos invertebrados, sem sal, dirias meu amigo, a mesma barbárie que negamos ali na rua Carlos Albers.

Os meus silêncios são mais audazes ao martírio da alma. Estou sentado na poltrona e não me emociono porque os anos do “Arrabenta” foram os mais fugazes. 

Caro poeta, não digo isso por demérito das vozes que se mostram neste lugar, mas por notar que a escola continua sem alunos. Parece que amamos as futilidades. É bom deliciar a multidão com uma mão cheia de nada? Andamos em desregramento. Poderei, em meus lamentos, infringir um golpe inóspito no Coração de quem deixou sair entre os dedos, os valores que a poética nos ensinou por mais de uma década? Neste instante que lhe escrevo seguro o coração pela mão e as lágrimas tingidas de medo. Caro Kalinda, não há vento que apagará os melhores dias da nossa adolescência.   




(1) Espaço localizado no Teatro Avenida onde se declama de poesia, debatem-se ideias entre outras actividades artísticas e culturais.

Breves linhas
M.P.Bonde nasceu a 12 de Janeiro de 1980 em Maputo. Foi membro do projecto (JOAC) e do colectivo Arrabenta Xithokozelo. Em 2017 lançou a sua primeira obra literária “Ensaios Poéticos” pela Cavalo do Mar.

Podem reler o texto que José Manuel Martins Pedro, o nosso correspondente de autores africanos, nos escreveu sobre este autor, neste link

sábado, 15 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... TACIANA VALENÇA

A RESPONSABILIDADE DO ESCRITOR

Existe um vídeo do nosso Ariano Suassuna onde ele diz: “Se usamos a palavra genial com Ximbinha, o que dizer de Beethoven?

Pois é assim que tenho percebido a introdução tanto de novos cantores e compositores como de novos escritores. O que se vê é que na facilidade desse  mundo onde tudo se tornou tão en passant, qualquer pessoa pode ser tudo o que quiser, não importa se faz bem feito, com responsabilidade e propriedade  ou não. Sempre haverá alguém para aplaudir, claro, alguém que não entende de música ou de literatura. Porque os que entendem, estudam e se preocupam não são enganados. Mas lembrando uma outra frase, dessa vez do Nelson Rodrigues: Os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos. Apesar da rudeza da frase, sinto dizer que ele tinha toda razão. Se os que aplaudem, aplaudem qualquer coisa por pura ignorância, os que fazem farão qualquer coisa e serão chamados de grandes, de maravilhosos, brilhantes e etc. Assim, grande parte da humanidade estará fadada a ouvir e ler qualquer coisa e pior, achar bom.

Quando falo da responsabilidade de um escritor é porque estou mais envolvida com eles e o que tenho visto é muito pouca preocupação com o que se escreve e, principalmente, com o que se publica. Hoje tenho apenas dois livros publicados, infantis, mas que não comercializei por me achar ainda muito imatura para tal. Tenho livros prontos de poesia, fazendo um de crônicas. Mas estão lá, maturando, sendo vistos e revistos.  Fiz oficina literária com Raimundo Carrero, um grande escritor, várias vezes premiado, por duas vezes. Quanto mais faço, treino e escrevo, mais percebo que ainda falta alguma coisa, que o público merece ler algo bom e não qualquer coisa feita para encher meu ego de vãs vaidades, que também pode marcar minha escrita como ruim para o resto da vida.

Acho que sim, podemos e devemos incentivar novos escritores. Qualquer um pode escrever bem, desde que leve a sério o compromisso com seus futuros leitores e consigo mesmos. Perpetuar a literatura é algo grandioso, mas feito irresponsavelmente pode ser uma grande catástrofe para nossa literatura.

Como sempre disse Carrero: leiam os bons, escreva, escreva e escreva. Fazer oficinas, ler grandes autores, treinar diariamente, pedir opiniões. Tudo isso feito com a devida constância só poderá ter um ótimo resultado. 

Os leitores e futuros escritores agradecerão o empenho.

Taciana Valença

Mini-Biografia:


Taciana Valença Administradora (Universidade Federal de Pernambuco), escritora, produtora cultural, editora da Revista Perto de Casa (Recife/PE/Brasil) e Diretora Social da União Brasileira de Escritores.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

ADRIANA FALA DE... KYRIE

Abrir as páginas do Kyrie, é como se os cantos gregorianos começassem a soar por nossa alma, antes mesmo de aprofundarmo-nos na leitura de cada poema. Uma leitura não muito fácil, pois é pontuada por algumas palavras que remetem a liturgia católica e outras em latim. E mexe com o oculto, a teologia, a filosofia que carregamos na história de nossas vidas.

Mas esse tom, que vem do sagrado e que percorre cada poema, que mistura-se com o profano em  versos cadenciados e bem elaborados fica explícito na arte da boa escrita. É como uma obra de arte, para apreciar, sentir, aprofundar-se. A relação do autor com ele mesmo, com a natureza, com a vida, fica bem pontuada, com ritmo e forma. Pura poesia, daquelas que vem das origens da escrita, revestidas por metáforas e signos.
Percebe-se o cuidado de Paulo de Carvalho,em fugir do conceito religioso, atendo-se a algo muito maior do que a religião, com simbolismos e uma linguagem peculiar, as vivências e reflexões que todo nós em algum momento de nossas existências, deparamo-nos. O existir de uma força maior e todos os questionamentos que nos envolve a partir disso, no mais íntimo de nosso ser.

Kyrie da primeira até a última página, nos leva para essa reflexão e indagação, e a uma introspecção, não só conduzida pela alma do poeta , mas também nós leitores, seguimos por esses caminhos, ao nos identificarmos com esse duo que carregamos desde os primórdios tempos:

A essência divina que é a chama que nos move, rege e de algum modo orienta, e o outro lado, concreto, material,  que nos faz tão mundanos, imperfeitos e únicos.

Um abraço tropical
Adriana Mayrinck

DRIKKA INQUIT

quinta-feira, 13 de julho de 2017

FALA AÍ BRASIL... BÁRBARA LIA

O mundo está desintegrando. Os grupos que deveriam se unir para lutar por igualdade - para todos - se fragmentam em pequenos caminhos a sós e dentro destes - caminhos a sós - se fragmentam mais. Por outro lado, o momento rosa das redes sociais exige todo mundo pensando igual em uma espécie de utopia besta de uma coisa que não existe - não somos os maravilhosos seres humanos plenos de beleza dentro. E isto não é de todo ruim. Afinal, a humanidade só leva esta graça imorredoura e esta poesia inescrutável por ser assim - impura e falha. Cara, eu lutei uma vida por uma Liberdade plena. Eu fui a louca que abandonou - TUDO - para ser quem sou e agora não consigo me unir a coisa alguma que não seja criança e passarinho, então - tá difícil. A liberdade é um beco que desagua no solidão do Ser. Em alguns nichos e momentos poéticos, em algumas almas, em alguns livros, eu me agasalho. E é só, percebo que, estamos sim, cada dia mais desnudos diante de tudo que pode nos soterrar em um segundo, pois existe um manual sendo digitado dentro da gente, que faz com que alguns esqueçam que ser Livre é algo como ser pele de estrela e alma de flor. Ser delicado e inquebrantável, sei isto é difícil, mas, poxa, o resto é o de sempre, e o de sempre nos trouxe até aqui. Enfim, não sei o que dizer meio a tanto debate e vertente e teorias e confrontos e me recolho, e fico "do lado de cá do arame farpado"...

Bárbara Lia


Mini-Biografia:

Bárbara Lia nasceu em Assai (PR). Poeta e Escritora. Professora de História. Publicou dez livros, entre eles: O sorriso de Leonardo (Kafka edições baratas), O sal das rosas (Lumme), A última chuva (ME), Constelação de Ossos (Vidráguas), Paraísos de Pedra (Penalux), Solidão Calcinada (Imprensa Oficial do PR) e Respirar (Ed. do autor). Integra várias Antologias, entre elas: O que é Poesia? (Confraria do Vento / Cáliban), O Melhor da Festa 3 (Festipoa), Amar - Verbo Atemporal (Rocco), Fantasma Civil (Bienal Internacional de Curitiba), A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua (Maputo). Vive em Curitiba.


quarta-feira, 12 de julho de 2017

ADRIANA FALA DE... IN-FINITA

As ideias surgiam e alcançavam pessoas que as tornavam possíveis. Comecei a existir, no tempo certo, sem data marcada, como as coisas que surgem por alguma razão que nos foge do entendimento.

Como uma colcha de retalhos, fui crescendo, amarrando pedacinhos de vivências, pessoas, realizações, com diversos trabalhos na divulgação do turismo em Recife e no Rio de Janeiro, após uma caminhada pelo mundo do jornalismo esportivo e artes plásticas.                       

A arte e a literatura sempre envolvidas. No olhar da fotografia, na crônica diária, no folder publicitário, na revista, no jornal, no cinema. E em cada lugar, um olhar diferente, um artista, um poeta, uma palavra. Os caminhos começaram a criar atalhos, cruzamentos, pontes, e para a poesia virar trabalho, foi apenas um acontecimento natural.

Além da concepção inicial de que tudo tem começo, meio e fim em um projeto, e de que o querer, o poder de realização, o desejo, o aprendizado, a inspiração, são infinitos, ganhei esse nome IN-FINITA.

Mas além da poesia, vieram várias formas de expressar e divulgar o trabalho artístico em diversos segmentos na produção de eventos ou edições literárias. Eu caminhava sozinha, sempre agregando parceiros e amigos ainda no início dos anos noventa e as ideias borbulhavam. E ganhei sobrenome e registro. Virei empresa : IN-FINITA Bureau de Ideias. E uma missão: Com o principal objetivo de divulgar e fomentar a Poesia Lusófona em eventos culturais.

E a caminhada foi ganhando ramificações, e com uma peça fundamental, o designer gráfico. Pronto eu estava quase completa. Agreguei a produção de capas de autores, elaboração de livros, folhetos, banners, e tudo que envolve o designer gráfico, além de criar sites e administrar redes sociais.

Em 2017, atravessei o oceano, e encontrei no TOCA A ESCREVER, a parceria que faltava para complementar, agregar e principalmente, realizar. Brasil e Portugal, agora caminham lado a lado, com projetos paralelos e também complementares. Somos dois em um. E com mais ideias e mais projetos por acontecer.

Muito prazer e sejam bem-vindos!

Esperamos por você, para um café, uma reunião, ou simplesmente, um bate-papo e troca de ideias.

Trabalhamos com Eventos e Feiras Literárias, Produção Cultural, Elaboração de Livros, Capas, Coletâneas, Antologias, Designer Gráfico, Web e Mídias Sociais, Fotografia e Assessoria de imprensa.

Um abraço tropical

IN-FINITA Bureau de Ideias

DRIKKA INQUIT